Conhecer o Aurelinho
Luis Fernando Verissimo
Eles viajaram no mesmo avião, lado a lado. Não se falaram. Nem se tocaram, fora uma leve cotovelada, involuntária, na hora de cortar o bife.
- Desculpe.
- Tudo bem.
Só. Nem mais uma palavra. Ela olhando para a frente o tempo todo, ele olhando pela janelinha, espiando a revista de bordo, tentando dormir. Ela pensando no que a esperava, o enterro da tia Chica, pobre da tia Chica, o encontro com os primos que mal conhecia, a chateação. Tinha boas recordações da tia Chica, única irmã do seu pai, mas não a via há muitos anos. Se obrigara a ir ao enterro em memória do pai. Pobre da tia Chica. Papai a adorava. Mas ia ser uma chateação. Como era mesmo o nome dos primos? Tinha um Saul. Sabia que tinha um Saul. Mas, e os outros?
Também ficaram juntos na fila do táxi, sem se falarem. Ele tinha mais ou menos a sua idade. Quarenta e tantos, cinquenta. Uma boa cara, apesar da expressão triste. Por que será que nem me olha? Eu não estou tão acabada assim. Ou estou? Preciso dar um jeito nesta cara. Botox não, Deus me livre. Mas preciso dar um jeito. Na minha cara, na minha vida, na...
- Pegue esse você.
- Mas você está na minha frente.
- Não, tudo bem. Eu pego o outro.
- Obrigada.
O primo Saul a abraçou e a chamou de Cris. Agradeceu por ela ter vindo. A mãe falava muito nela. Sempre dizia, é uma pena vocês não conviverem mais com a prima Cristina, com a filha do Paulo. É uma pessoa adorável. Desde pequeninha, uma menina adorável. Ela ia gostar muito de saber que você veio, Cris, disse Saul. Ninguém a chamava de Cris. O Saul era gordo e estava com os olhos vermelhos. Levou-a para cumprimentar o resto da família. Ela estava no meio de um círculo de primos lacrimejantes, tentando lembrar seus nomes, quando viu o homem entrar. Seu vizinho do avião. Ele também sorriu ao reconhecê-la.
- Coincidência.
- Pois é.
- Você é...
- Cristina, sobrinha da tia Chica.
- Cristina?!
Ela estranhou. Por que aquela surpresa? O rosto dele parecia ter se inundado de prazer.
- Eu sou o Aurélio. Aurelinho. A sua tia Chica vivia...
Claro! A tia Chica vivia dizendo que eles precisavam se conhecer. Aquilo até virara uma brincadeira na família. A Cristina e o Aurelinho da dona Marta eram feitos um para o outro, segundo a tia Chica. Só precisavam se conhecer. Mas nunca se encontravam, por mais que a tia Chica tentasse aproximá-los. O pai de Cristina repreendia a irmã: "Não tente fazer o papel do destino, Chica. Um dia eles vão se encontrar." E o encontro nunca se dera. Quando a Cristina vinha passar as férias no Sul, o Aurelinho estava na praia. Na vez em que o Aurélio, já homem feito, fora ao Rio com ordens da tia Chica para procurar a Cristina, alguma coisa acontecera. Uma inundação ou uma revolução. Não tinham se encontrado. Anos depois, quando o Paulo se queixava para irmã que a filha não se acertava com ninguém, a tia Chica sentenciava: "É porque ela não conheceu o Aurelinho." Conhecer o Aurelinho se transformara num adágio familiar, significando acertar a vida. E agora ali estava ele. O Aurelinho da dona Marta, em pessoa, radiante no meio do velório por ter finalmente encontrado a Cristina do seu Paulo.
- Você também mora no Rio.
- É.
- A sua mãe, a dona Marta...
- Faleceu.
- Mmm.
Não conversaram muito mais do que isso durante o velório, e se perderam um do outro depois do enterro. Mas descobriram que estavam no mesmo hotel - e em quartos contíguos! Naquela noite, eram as únicas duas pessoas no bar do hotel, e no dia seguinte as únicas duas no café da manhã. Trocaram reminiscências da tia Chica, riram bastante, ele contou que também não era casado e que nunca se acertara com ninguém. Foram para o aeroporto no mesmo táxi, mas só quando se viram outra vez sentados lado a lado no mesmo voo foi que Cristina perguntou:
- Você não acha tudo isso coincidência demais, não?
- Você quer dizer que...
- Que a tia Chica pode estar orquestrando tudo.
- Lá de cima?
- Sei lá. Ela pode estar, finalmente, em posição de determinar o nosso destino. E está puxando as cordinhas.
- Será?
Quando chegaram ao Rio, marcaram um jantar num restaurante para aquela noite mesmo. Coincidência ou não, o fato era que o encontro tão desejado pela tia Chica finalmente acontecera. Mas quando entrou no seu apartamento e olhou em volta, as suas coisas desorganizadas como ela queria, aquele cenário de resignação confortável e boa solidão, tudo que ela teria que desalojar para acomodar o destino, Cristina pensou: não vou. Desculpe, Aurelinho, mas não vou. E pensou: boa tentativa, tia Chica. Mas tarde demais.
Domingo, 23 de março de 2003.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.